29 jun

4 Perguntas – Sylvia Barreto

No último dia 20 de junho, a B4Tcomm estreou um novo ciclo de eventos chamado DEB4TE Lifetalks. A primeira edição, que aconteceu na Casa do Saber, em São Paulo, abordou um tema importante para a indústria do Turismo e abriu a discussão entre os participantes, que compartilharam em suas redes sociais e se juntaram nesse papo. A imprensa do trade também esteve presente e apresentou sua visão em ótimas reportagens, com destaque para a revista Hotelnews.

No centro do debate estava a jornalista Sylvia Barreto, editora do Viajar é Simples, a quem convidamos para continuar o papo aqui na seção “4 Perguntas”.

1) Você comentou que o tema “Gordofobia no Turismo”, já relatado em seu blog anteriormente, teve um evento dedicado, pela primeira vez, no nosso DEB4TE Lifetalks. O quão importante você acredita ser essa discussão aberta e sem preconceitos?

Sylvia Barreto: Já tratei do tema tanto no site quanto no blog. Aliás, no blog, como é bem pessoal, tenho até a categoria ViaGGem . No site, tratei do tema no único espaço que escrevo em primeira pessoa, o “Palpites da editora”. A discussão é importante porque ela expõe uma problema que, muitas vezes, quem não está acima do peso nunca se deu conta. Claro que também é importante para trabalhar a questão do preconceito, mas no caso do turismo, acho ainda que é algo que o setor simplesmente nunca percebeu. E, para quem realmente tem muito excesso de peso, como eu e outras pessoas, é ótimo poder discutir essas situações e tentarmos soluções.

2) Durante sua palestra no DEB4TE Lifetalks, você disse que lutou contra a balança por muito tempo na sua vida. Em que momento você “virou a chave” e decidiu ser feliz e saudável sem se importar com os tais “padrões” estabelecidos pela sociedade?

Sylvia: Acho que essa “virada de chave” aconteceu naturalmente, depois que virei adulta. Eu fui engordando bastante com o passar dos anos e vendo que o meu peso não mudava quem eu sou e nem me deixava mais feia, como os padrões impostos pela sociedade nos fazem sentir. Eu comecei a me sentir segura, algo que não havia acontecido nem quando eu era muito magra. Acho que é mais uma questão de maturidade e de seguir o que importa para nós, e não se preocupar com o que outras pessoas vão achar.

3) Pudemos concluir em nosso evento que a questão da Gordofobia está atribuída mais à estética do que ao excesso de peso propriamente dito. Como fazer para dissociar esse pensamento difuso e diminuir o preconceito?

Sylvia: Sim, a gordofobia está muito mais ligada à estética. Hoje ainda vejo pessoas me dizendo: “você não é gorda, é linda”. Para essas pessoas, ser gorda é sinônimo de ser feia, elas não conseguem admitir que alguém possa ser bonita e gorda, logo, se me acham bonita, eu não sou gorda. Mas a verdade é que sim, eu sou gorda, sou taxada de gorda desde quando não era de verdade, quando usava manequim 42. Então acho que um dos caminhos para diminuir o preconceito é um posicionamento do próprio gordo, de se assumir nessa condição, de manter a cabeça erguida e de mostrar que sim, um gordo pode ser bonito, pode se vestir bem e ser feliz. Essa felicidade do gordo parece até que ofende, mas não se esconder e tomar nosso espaço é uma das maneiras de combater a gordofobia, as pessoas vão ter que se acostumar, quer queiram, quer não. Nós temos todo direito de ter uma roupa bonita do nosso tamanho ou de fazer uma tirolesa.

4) Segundo o Ministério da Saúde, 53% da população brasileira estão acima do peso. Como a indústria do Turismo poderia se preparar melhor para receber esses potenciais turistas?

Sylvia: O turismo precisa perceber que lida com pessoas e seu bem estar, é aquele “bem receber” pregado pela hotelaria francesa que parece esquecido por grande parte do setor. A pessoa que viaja a trabalho não tem muita opção, mas a que viaja a lazer tem o poder de escolha. Se ela for bem recebida e se sentir confortável em um local, ela vai voltar. Se viajar a trabalho e gostar de uma certa companhia aérea ou hotel, ela vai levar a família.

Primeiro, acho que os profissionais do turismo precisam pensar com a cabeça do cliente, isso parece óbvio, mas acho que pouca gente faz. Quantos gerentes já entraram em um quarto de hotel e deitaram na cama, tentaram tomar um banho e usar a toalha em cada categoria de apartamento que oferecem? Quantos contratam clientes ocultos com excesso de peso? É um número enorme, excesso de peso engloba desde quem tem poucos quilos acima “do ideal” até os mais obesos, não dá para ignorar mais, não dá para ignorar que tem gente deixando de participar de atrações porque elas não são receptivas e que tem gente que não fica confortável nem em hotéis de luxo porque o preparo, de equipamento e humano, é péssimo.

O turismo também deve achar meios de fazer todos os clientes se sentirem confortáveis oferecendo equipamentos adequados, seja uma cama, uma toalha ou cadeiras em restaurantes. No caso de toalhas, como eu disse no DEB4TE, os hotéis e parques aquáticos, mesmo que não possam comprar todas de um tamanho especial por questão de custo, podem comprar um percentual em tamanhos maiores  e treinarem seus funcionários para perceber a necessidade de cada cliente.

Por falar em treinamento, a capacitação em todo setor em relação ao cliente acima do peso é obrigatória. Isso já começa desde a venda/compra dos produtos turísticos. Os agentes de viagem, por exemplo, devem orientar melhor seus passageiros com excesso de peso indicando os hotéis mais confortáveis e passeios que os recebam bem, até na hora de alugar um carro isso influencia. E, treinar colaboradores para que estejam preparados para receber qualquer tipo de público e não só homens brancos, héteros e com padrão de peso e altura “ideais”.

A informação prévia na hora do planejamento, principalmente para o viajante que planeja a viagem e compra tudo on-line, é de extrema importância. Hotéis, companhias aéreas e atrações turísticas podem deixar seus sites mais detalhados para que as pessoas obesas achem informações que mostrem o quão elas ficariam confortáveis no local.

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